23/03/2009

O Mito de Narciso

Ao examinarmos a tese dos “Ciclos Culturais”, como a coloquei numa postagem anterior—tese, aliás, que não é minha, mas que vem sendo desenvolvida ao longo dos séculos, e que chegou a nós meticulosamente elabora pela mente brilhante do professor Mário Ferreira dos Santos—podemos verificar que toda luta desenvolvida ao longo da história gira em torno do poder.
Erram os hegelianos ao encarar a dialética como sendo apenas entre senhor e escravo; erram, também, os marxistas ao reduzir a luta apenas entre classes sociais. Não que estejam totalmente errados, mas esquecem-se de que abstraíram apenas um pequeno fragmento da totalidade do fenômeno e crêem dessa forma poder obter resultados concretos.
A concreção se dá através da junção de todos os acidentes analisados separadamente para, então, passar a compreender a essência do fenômeno.
E a essência é a luta entre o bem e o mal. Mas este mal não se encontra apenas virtualizado na sociedade, o mal não se encontra tão somente nas outras pessoas, como se fossemos imunes a todo e qualquer erro, este mal se encontra dentro de cada um de nós, cada indivíduo traz este mal dentro de si. Não há um abismo entre o Bem e o Mal, estão intimamente ligados, o mal começa onde o bem se ausenta; o bem começa onde o mal é superado.
Os gregos sabiam disso, e podemos verificar essa sabedoria no Mito de Narciso.
Como todos devem saber, não se interpreta um mito de forma literal—como o fez Pausânias, inventando uma irmã gêmea de Narciso, cuja morte o levou a atirar-se na água, ao ver seu próprio reflexo acreditando ser a irmã que fora morar no fundo do lago (ver Guia para a Grécia). O mito, como bem descrito por Ovídio em suas “Metamorfoses”, sugere uma interpretação simbólica, pois todas as verdades superiores são transmitidas por símbolos, dada a dificuldade em se tratar assuntos de ordem superior; e Ovídio, apesar de poeta latino, era pitagórico, iniciado por sábios remanescentes do Instituto Pitagórico de Crotona, sua poesia é uma poesia catártica.
Seus poemas, ao contrário do que se pensa, não são apologias à imoralidade; esta lenda se deve ao fato de ter escrito o poema “A Arte de Amar”, cujo objetivo consiste em desvendar os mistérios da sedução precavendo assim seus leitores quanto aos perigos desta Arte.
Em seu poema “Narciso e Eco” (metamorfoses, livro III, vrs. 340 a 510) Ovídio descreve o dramático fim de Narciso, um auto-admirador. Este Belo poema nos alerta sobre os perigos do excesso, no caso a vaidade, cujo resultado é a morte. Porém antes deste dramático fim exibe-se uma grande tragédia. Narciso, desprezando tudo aquilo que não fosse espelho, que não refletisse sua própria imagem, sua autolatria, espalha a dor e o sofrimento entre as ninfas que se apaixonam por ele. Narciso, cego pela própria beleza subjetiva, despreza a objetividade do mundo ao seu redor.
Pois bem, podemos verificar que o ser humano é um ser que carece de prestígio, de celebridade, fama, glamour... E na busca deste prestígio tende a impor-se ao seu semelhante exercendo sobre este ora seu talento, seja persuasivo, sedutor, artístico; ora o poder financeiro; ora a beleza física ou até mesmo a força, anelando mesmo dominar todos os setores da vida social; e não há setor mais cobiçado que o político, pois é aí que se obtêm maior soma de poder. Podemos, então, verificar que todos os ditadores, sátrapas, sibaritas, tiranos e déspotas de toda história eram homens narcisistas, homens carentes de prestígio, adoradores de si mesmo. Até porque o narcisismo não é senão isso: um adorar-se a si mesmo, não o que realmente se é, mas a imagem que se tem ante seus olhos, da projeção que se faz de si, e se satisfaz com isso chegando ao extremo de uma enganosa auto-suficiência, o que o leva ao auto-endeusamento. E este é o sentido mais profundo do pecado de Satã que podemos encontrar no cristianismo: a vontade de ser deus.
O narcisista não vê em seu semelhante senão um servidor, então ele busca o poder político para dessa forma obter cada vez mais influência sobre as outras pessoas para tê-las servindo-o até a bajulação mais abjeta. Isto porque o narcisista procura desmerecer todos a sua volta para poder ele se valorizar, pois a valorização de seu ego é o seu objetivo. E esse excesso de auto-valorização, auto-adoração, esse endeusamento de si próprio muitas vezes o leva ao sadismo, pois seu semelhante não passa de um objeto feito única e exclusivamente para servi-lo.
Quando, então, estes indivíduos se apossam do poder político tão anelado, poder este que lhes dá o domínio sobre o Estado, a Economia, e sobre toda a ordem social vigente, com o apoio dos bajuladores que só servem para robustecer ainda mais este narcisismo, estabelecem regimes de brutalidade que só tem servido para tornar a existência humana insuportável, e que, ademais, trazem as revoltas sociais que são claramente compreensíveis, mas que, por sua vez, tendem a piorar ainda mais a situação, posto que o líder revoltoso não é senão outro narcisista.
Para evitar este tormento é que existem as Religiões Superiores.
Pois bem, o narcisismo, como disse anteriormente, é o pecado de Satã, é a vaidade, o orgulho, onde a inteligência cai sobre si mesma levando o homem ao auto-endeusamento.
O primeiro passo que deve ser dado por todos os homens de todas as regiões do mundo é reconhecer a superioridade da divindade que é a Fonte e Origem de todas as coisas, pois a falta de uma moral superior, de ordem religiosa, é o que leva o homem aos excessos sensistas, que são aqueles que acreditam apenas numa percepção sensível, negando todo e qualquer valor a uma percepção de ordem espiritual; que por sua vez gera o hedonismo, o valorizar somente os prazeres sensíveis e individuais da carne; de onde surge o materialismo, onde o homem se prende dentro de uma gaiolinha minúscula e não consegue mais abordar, não o infinito, pois este é inabordável pela própria definição, mas participar de seus mistérios e graças; o que gera um desespero, neste isolamento, diante da falta de perspectiva frente à morte, pois nada há de mais certo neste mundo que a morte, e, dessa forma, o homem acaba caindo no narcisismo como que para suprir a falta de perspectiva diante do futuro, ou seja, tal homem começa a super valorizar a vida terrestre acreditando que a morte é o fim, e, então, o narcisismo torna-se a busca, na terra, do Paraíso Celeste.

Para uma melhor compreensão, podemos examinar uma passagem bastante conhecida do Evangelho onde Cristo sofre as três tentações no deserto, passagem que se encontra no Evangelho de São Mateus, capítulo 4. Das três tentações, a que mais interessa neste nosso tema, o narcisismo, é justamente a última, onde o Diabo transporta Jesus ao alto de um monte e lhe mostra todas as riquezas da terra, toda a sua glória, e lhe promete o poder supremo sobre tudo, ao que Jesus, então, lhe responde: “Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (São Mateus, IV, 10)

Jesus rejeitou toda a fortuna da terra, todo o poder sobre todas as nações, porque sabia que tudo isso é temporal, passageiro, só tem valor para a vaidade humana, ao passo que o Reino dos Céus é eterno e a Misericórdia infinita. Cristo desprezou o poder político e amou a sua missão: trazer a redenção aos homens. Amando sua missão, Cristo aceita toda dor, todo sofrimento, aceita pacificamente sua cruz no calvário, o símbolo do cordeiro, pois sua missão foi a de ensinar aos homens o caminho que leva à vida eterna.
Cristo não nos pede para violentar o ego, pois o narcisismo, na verdade, é uma luta psicológica entre a id, o ego e o super ego. A sabedoria consiste em harmonizar essa psique. Dessa forma o homem tem que partir para o que não é ele, para o outro; o homem deve por esse amor para fora, direcionado-o para algo que lhe é superior, deve aprender a ofertar o melhor de si a Deus. Este é o símbolo do ofertório, o homem deve, assim como Abel, ofertar o melhor de si a Deus para dessa forma não cair nos excessos que levam ao narcisismo.
Esse, também, é o sentido mais profundo da Caridade Cristã.
Não basta, porém, ser religioso, pois até mesmo dentro da Igreja existem narcisistas.
Se por um lado a caridade leva o homem a considerar mais humanamente o seu semelhante, a respeitá-lo e tratá-lo com toda dignidade, que deve ser dada a toda criatura de Deus, por outro lado a caridade ajuda o ser humano a melhorar a si próprio. Pois a verdadeira caridade não é doar aquilo que está sobrando dentro de sua casa, o que é dispensável; ao contrário, a verdadeira caridade é compartilhar justamente aquilo que lhe é caro, que lhe vai fazer falta, é isso o que diz Cristo: “Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames.” (São Lucas, VI, 30)
Portanto, não basta ser apenas religioso, professar um cristianismo apenas exterior; é necessário viver interiormente o cristianismo. Hoje a religião, para muitos, não passa de uma mera obrigação social. Muitos vão à Igreja assistir missas aos domingos apenas para cumprir um ato exterior da cultura cristã, mas o cristianismo não é só isso.
Quem não vive o cristianismo interiormente, ou qualquer outra forma religiosa, desde que seja uma forma religiosa superior, base de fundamentação civilizacional, como é o cristianismo, está sujeito a cair no narcisismo.
E esta é a mais verdadeira interpretação do Mito de Narciso.






In Corde Maria Virgine semper,
Damasio Maria Soares




.

2 comentários:

  1. Olá Damasio,

    Muito legal um blog de reflexão sobre filosofia e sociologia política. Deve ser algo raro. Acho q vc poderia disponibilzar seus posts em formato de word também para facilitar a leitura visto serem textos grande.

    Daniel Barreto
    http://papodepolitica.blogspot.com

    Se lhe interessar tenho um blog de Política e Relações Internacionais.

    Abs!

    ResponderExcluir
  2. Ola meu caro Damasio!

    Linda interpretacao do Mito de Narciso.

    Gostei muito e lendo ja comecei o trabalho de reflexao. Acredito que tenho muito trabalho pela frente.

    Abracao e obrigado por disponibilizar tao rico conhecimento.

    Helio Junior

    ResponderExcluir