Antes de mais nada, gostaria de fazer um breve resumo sobre estudos feitos por historiadores como Oswald Splenger, Arnold Toynbee,e que posteriormente foram desenvolvidos pelo filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos a que chamou de “Ciclos Culturais”.
Podemos verificar na história o surgimento de grandes civilizações. Todas elas, sem exceção, mostram um ciclo de nascimento, desenvolvimento, apogeu, decadência e, finalmente, desaparecimento. Assim foi com a Suméria, o Antigo Egito, Babilônia, Pérsia, a Magna Grécia, Roma, entre outras. Isto atesta a história, e parece que o mesmo se pode aplicar a nossa civilização, a Ocidental. Não se deve erroneamente acreditar numa suposta repetição da história; o que há não é uma repetição, mas uma atuação dos elementos corruptivos presentes em todos os ciclos culturais desde as suas origens.
Primeiro é preciso esclarecer que não existe civilização perfeita, nem nunca existiu nem jamais existirá, posto que uma civilização é feita por homens imperfeitos e limitados. Daí também se conclui que o surgimento de uma civilização só se faz possível através de uma intervenção divina na ordem temporal vigente, pois a história também atesta que toda civilização surge inicialmente através de uma revelação divina, ou seja, dada a limitação do homem, é impossível construir uma civilização sem uma moral transcendental, sem a Graça, e é justamente por isso que todas as civilizações sempre têm inicio com os profetas, ou com as divindades. Mas os elementos corruptíveis desta mesma civilização já existem em potência em seu próprio surgimento, pois, como já disse anteriormente, deve-se levar em consideração a imperfeição do homem; e estes mesmos elementos vão se atualizando com o passar do tempo gerando, assim, sua decadência e desaparecimento.
Segundo o filósofo Mário Ferreira dos Santos, um dos principais elementos de corrupção atuantes numa civilização é aquilo que ele chamou de “Kratos” (poder em grego), pois a história atesta também uma constante luta pelo poder, pelo domínio, por essa força negativa, satânica, se é que se pode dizer assim, onde o homem sempre tende a se sobrepor ao seu semelhante. Dessa forma, não se pode negar o papel destrutivo da busca pelo poder, mas por outro lado também não se deve desprezar sua parte positiva, importante para manter a ordem e a boa convivência entre as pessoas de bem. E é justamente por esse motivo que o poder deve estar nas mãos de pessoas virtuosas, pessoas santas, pessoas de uma moral religiosa superior, pois só assim é que pode administrar o poder com sabedoria.
Assim temos o seguinte quadro cíclico civilizacional:
1) Fase Teocrática (Theos, Deus; Cratos, poder)
No período inicial de formação de uma cultura, que forma a civilização, temos a fase Teocrática, onde a própria divindade dá as leis necessárias que regulam a ordem social. Aquele que recebe tais leis, em forma de revelação, numa linguagem simbólica, é o iluminado, o profeta, alguém que alcançou a pureza espiritual necessária para bem interpretar a linguagem simbólica da revelação. Esta figura às vezes pode ser divinizada, como o caso de Hermes Trimegisto, conhecido como deus Thot na tradição egípcia. Este iluminado aparece como um homem digno de ascender à divindade, como um Rama entre os árias, Moisés entre os judeus, Maomé entre os árabes, ou São Pedro, cujos apóstolos deviam obediência, entre os cristãos. Neste início, o iluminado tem o poder total e completo em suas mãos, sem nenhuma restrição, pois o poder, nas mãos de um homem santo, iluminado, virtuosíssimo, atua sempre de forma positiva.
Depois temos os segundo período, chamado:
2) Hierocracia (hieros, santo)
Neste segundo período o poder passa a pertencer a homens santificados; iniciados, em sua maioria, pelo primeiro iluminado; são os sacerdotes. São os representantes e cumpridores da lei divina que neste momento formam uma nova civilização. É o período dos brâmanes na Índia, dos grandes sacerdotes egípcios, dos grandes profetas hebreus que guiavam um povo sem rei, nômade, pelas estepes do Oriente Médio, e da patrística entre os cristãos, onde temos gigantes como São Gregório, São Clemente de Alexandria, São Justino Mártir, Santo Atanásio de Alexandria, entre outros.
Mas é neste período que o cratos já começa a atuar de forma negativa, pois alguns se negam a submissão aos sacerdotes, onde começam a surgir os heresiarcas—é o caso dos charvakas entre os hindus; dos gnósticos entre os cristãos; ou, ainda dentro do cristianismo, os seguidores de Marcion, Montano, Ário, Apolinário, entre outros. Então a fé começa a ser abalada, pois o principal objetivo dos heresiarcas é justamente tomar o poder das mãos dos sacerdotes; e movidos por este sentimento de rebeldia, não hesitam até mesmo em negar a origem divina das próprias Escrituras Sagradas para assim tentarem impor uma moral que já não vem de Deus, mas dos homens.
Neste momento crucial, onde a civilização corre o risco até de desaparecer precocemente—pois já houve casos registrados pela história, como podemos verificar na formação das civilizações pré-colombianas, altamente desenvolvidas, que foram precocemente destruídas por bárbaros como eram os incas, maias e astecas, cujo único objetivo era buscar pessoas para serem sacrificadas em seus altares sangrentos—neste momento crucial, para defender a civilização, é que surge uma nova forma de poder:
3) Aretocracia (areté, virtude)
Nesta fase surgem os homens virtuosos, corajosos, impetuosos na fé, que chegam a usar de violência, como no caso das cruzadas, para defender a nova religião, que é a espinha dorsal da nova civilização.
Com relação às cruzadas, cabe aqui um esclarecimento. As cruzadas não foram senão uma guerra civilizacional, pois se os cristãos não pegassem em armas para defender o ocidente, todos nós seriamos islâmicos hoje. Historiadores modernos, imbuídos de um sentimento anti-clerical, anti-religioso, e até mesmo anti-cristão—sintoma típico da fase em que vive nossa civilização, que tratarei mais adiante—costumam contar a história a partir da primeira cruzada e se esquecem que quem primeiro atacou o ocidente foram os próprios islâmicos, pois o islamismo tem a mesma característica proselitista do cristianismo.
Retornando ao assunto, nesta fase o poder já não se encontra apenas nas mãos dos sacerdotes (homens dotados de sacer, sacralidade, santidade), mas é dividido com os guerreiros defensores da nova fé, homens que passam a deter o poder temporal através de seu exemplo de heroísmo e cumprimento dos princípios éticos-religiosos.
Mas o cratos continua atualizando suas forças negativas, pois com a divisão do poder começa a luta pelo poder temporal, ou seja, os sacerdotes que detinham o poder total, tanto espiritual quanto temporal, se vêem obrigados a ceder, pouco a pouco, o poder temporal. Começa assim a fase seguinte:
4) Aristocracia (aristós, os melhores)
Nesta fase, as classes economicamente poderosas começam a exigir participação no poder. Os choques são inevitáveis. Os aristocratas passam a não mais obedecer às ordens dos sacerdotes e elegem seus próprios reis. É o caso dos reis eleitos entre os nobres polacos, ou entre os austurianos, etc. A separação entre poder espiritual e poder temporal é crescente e inevitável. Os sacerdotes continuam com o poder espiritual, mas acabam por ceder definitivamente o poder temporal. Entramos, assim, na fase seguinte:
5) Oligocracia (oligós, poucos, escolhidos)
É o governo onde alguns privilegiados, apoiados pela aristocracia, exercem o poder; é o caso, por exemplo, das famílias italianas no fim da idade média, como os Ferraras, os Bórgias, os Médicis, os Sforzas, etc.
Estes poucos, não contentes em deter apenas o poder temporal, tentam a todo custo invadir a Igreja em busca também do poder espiritual. É o caso, por exemplo, de Papas oriundos da família Médici como Papa Leão X (1513-1521), Clemente VII (1523-1534), Pio IV (1559-1565), Leão XI (1605); ou da família Bórgia como o Papa Alexandre VI (1492-1503).
Agora que fique claro: não questiono a santidade e nem muito menos o valor moral destes homens, apenas tento ser o mais imparcial possível, e neste sentido não se pode negar o fato de que estes Papas foram eleitos devido à forte influência que suas famílias exerciam na sociedade da época. O que vem a confirmar isso é o movimento episcopalista levantado pela Companhia de Jesus, onde sua principal reivindicação era a de que qualquer pessoa, independente de posição social, poderia ascender ao papado, e não apenas os nobres, passando assim a ter a Virtude e Santidade como principais referências para ascender ao trono do Sumo Pontífice.
Pois bem, retornando à Oligocracia, neste período a separação entre poder temporal e espiritual se dá de tal forma que o primeiro já não é mais o subordinado, mas passa a ser o subordinante, ou seja, o poder temporal se torna mais forte que o poder espiritual, preparando, assim, o advento do outro período que é a:
6) Monocracia (monos, um), ou Absolutismo
Neste período os sacerdotes que detinham, no início, todo o poder, tanto temporal quanto espiritual, e que foram perdendo ao longo do tempo, vêem-se, agora, sem nenhum poder, nem mesmo o espiritual, pois este passa a ser exercido pelo próprio Rei. É o caso da Alemanha reformada, onde os príncipes passaram a exercer tanto o poder temporal quanto espiritual, e as Igrejas cristãs existentes não passavam de meras instituições controladas pelo governo. Para melhor esclarecimento, reproduzo abaixo um trecho do ensaio escrito por Carpeaux:
“A reforma luterana partiu das universidades. Lutero era professor em Wittenberg; foi este seu título de autoridade para reformar a Igreja, assim como ao mesmo tempo seus adeptos, os príncipes alemães, reformaram seus Estados. E aconteceu que as novas Igrejas protestantes logo se tornaram meros órgãos administrativos, a serviço daqueles príncipes. (...) Na Alemanha não houve sociedade livre nem livres-pensadores nem Igrejas livres. E com o enfraquecimento dos poderes eclesiásticos, a religiosidade da nação laicizou-se, asilando-se nas universidades: a própria ciência virou religião.”
Oto Maria Carpeaux, “Experiência e Valores”, da coletânea “Ensaios Reunidos”, volume I, editora Topbooks, página 519.
Mas neste meio tempo uma outra classe, já detentora do poder econômico, e aspirando ao político, representada pelos mercadores (burgueses no ocidente, vasyas entre os hindus, etc.) já preparam uma grande revolução com ideais republicanos (res publica, a coisa pública) e começa então o próximo período que é a:
7) Democracia (demos, povo)
Nesta fase a decadência já se torna evidente. O período clássico, onde a sociedade era governada inicialmente pelo Santos (Hieros), passando pelos Virtuosos (Aretés), seguidos dos Melhores (Aristós), já não existe mais. Quem detém o poder, nesta fase decadente, são os homens das classes inferiores apoiados pelo poder econômico. Como exemplo temos a Revolução Francesa, a Independência dos Estados Unidos, a Proclamação da República no Brasil, e etc.
Assim, todo e qualquer valor Espiritual perde sua força para o poder material, ou econômico, pois o dinheiro é o símbolo maior do materialismo. De maneira que a democracia vai se degradando cada vez mais, subdividindo-se em várias fases:
7-1) Plutocracia (plutoi, ricos)
São os grandes mercadores, homens de negócio, alguns vindos mesmo da própria aristocracia, que formam a base e o fundamento da civilização decadente. Terminam por ser dirigidos pelos próprios interesses financeiros, e temos então a fase seguinte:
7-2) Argirocracia (argyros, prata)
O dinheiro é o único valor nesta fase. O Estado, onde já não existe mais o poder Espiritual, é transformado numa máquina de fazer dinheiro, onde se começa o excesso de tributações, a queda na qualidade de vida e, principalmente, o controle, através dos transmissores de informação (a mídia), das massas. Nesta fase a propaganda, as distorções de fatos históricos, com o intuito de inibir qualquer reação de ordem espiritual, e outras artimanhas mais, é a arma mais utilizada pelos poderosos. Já não existe mais realidade objetiva; nas ciências e filosofias a argumentação prevalece sobre a demonstração, cria-se mesmo uma nova mitologia, uma mitologia biônica, artificial, sem nenhuma inspiração supra-temporal, divina.
Então as massas, que anseiam valores concretos, valores que transcendem a própria existência, embriagadas por ideologias utópicas, hipnotizadas mesmo pelos demagogos que sempre existiram e sempre se serviram das desgraças alheias para ascender ao poder, preparam o advento da próxima fase:
7-3) Oclocracia (oclos, a massa das ruas)
As massas populares tomam o poder, não as massas em si, mas os demagogos (demos, povo; gogia, condutor de rebanho) representantes das massas. É a revolução das massas populares trazendo a desordem, a destruição, avassalando tudo em sua selvageria bárbara, preparando a:
8) Cesariocracia
O poder é retomado pelos guerreiros, apoiados pelas forças militarizadas da sociedade. Ao caos implantado é imposta a ordem. Inicia-se o período de guerras sangrentas. Ou se invade outras civilizações ou se deixa invadir por outros povos. Tanto as guerras externas quanto as internas são inevitáveis, pois nem todos apóiam o poder militarizado, e contribuem, assim, com as invasões bárbaras, apoiadas pela própria degenerescência da cultura e da sociedade. É um caos pior que o anterior. Sobrevém, então, aos poucos, após um longo período de violência, o Gran Finale:
9) Acracia
Não há mais um poder centralizado, mas um poder disperso em pequenos grupos, onde alguns lutam pelo restabelecimento da última ordem (os reacionários), outros por um retorno, um renascimento do passado glorioso (os tradicionalistas), outros pelo estabelecimento da nova fase civilizacional que se inicia (os apóstatas) e outros, ainda, simplesmente não querem mudar nada, pretendem deixar as coisas como estão por estar conscientes, por experiência própria, de que toda mudança é sempre para pior (são os conservadores).
Eis os ciclos culturais propostos pelo professor Mário Ferreira dos Santos. Não se deve, porém, interpretar a história seguindo a fórmula literalmente, pois nem sempre os fatos ocorrem necessariamente nesta ordem, às vezes os reacionários conseguem paralisar, por um certo período, os elementos corruptivos de uma civilização—como a contra-reforma católica, por exemplo. Outras vezes há um retorno de uma fase à outra antes da destruição final—como o cesarismo de Napoleão que paralisou uma revolução e fez a França retornar ao monarquismo, ou o Hitlerismo que foi paralisado pelos aliados e fez a Alemanha retornar à democracia.
No Japão, por exemplo, houve um caso, raríssimo. A Restauração Meiji não fez senão destruir os valores culturais vigentes na civilização japonesa, onde o poder aristocrático, representado pelo Xogunato, foi suplantado pela monarquia Meiji que modernizou e ocidentalizou a sua cultura preparando assim o advento da Democracia. Ao mesmo tempo em que houve um retrocesso no ciclo, com a Monarquia retomando o poder da Aristocracia, houve uma corrupção maior na cultura, pois o Imperador, aquele que deveria ser o mais conservador dentro da civilização, estava já totalmente contaminado pelas idéias modernistas.
Assim, através deste estudo, podemos identificar em que fase nos encontramos: na Argirocracia, que é uma subfase da Democracia. Nesta fase, como bem podemos perceber, impera a mentira publicitária criando a cada dia novos valores sem fundamento com o único objetivo de vender e lucrar com coisas fúteis: vídeos games; celulares cheios de funções inúteis; carros super potentes usados apenas para ir ao trabalho, fazer compra; pornografia; cinema de sub cultura alienante; super valorização de atletas; e assim por diante.
Damásio Maria Soares.
14/03/2009
Ciclos Culturais
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Necessito agradecer-lhe por construir esse Blog rico em história do passado, presente e com certeza p/ o nosso futuro incerto.
ResponderExcluirEstamos em tempos, o qual não sei o nome apropriado à isso, onde nossos valores humanos estão muito confusos entre Deus a midia e a sobrevivência.
Tudo o que está nos faltando é isso : Informação e consciência.
Estamos muito perdidos e incapacitados para avaliar e distinguir entre o bom e o ruim, o certo e o errado.
Depois da lavagem cerebral feita ao longo dos anos, somos programados à aceitar todo e qualquer lixo que venha de alguém que se intitule como "LIDER". A esse corajoso ser, a história do mundo é algo muito distante p/ ser analizada, não há necessidade em ter grandes ideias, não há necessidade de apresentar uma bagagem cultural, basta ter astúcia e coragem que drible a timidez e tenha a estupidez de falar em público como se fosse um vendedor de ilusões.
Vender imagem no meio do caos mundial, brincar de ser líder longe do seu território, agitar grupos desorientados e pobres de informações, o resultado só poderá ser mais um vexame tupiniquim.
A demagogia é absurda, a falta de preparo é assustador, não existe parâmetros p/ nivelar essas atitudes inconsequentes a qual eu vejo que não haverá vencedores nem perdedores, simplesmente acabará na primeira atitude ou palavra imposta vinda de cima.
Desaparecerá como o pó da terra.
Talvez entre na lista dos 10 mais absurdos cometidos por uma comunidade carente de estrutura e fundamentos.
É nessas horas que perdemos a esperança, quando percebemos que tudo não tem mais solução, e vem o arrependimento do empenho que foi p/ descobrir a verdade. Quando tudo oq nos cerca é um batalhão de adeptos contribuíndo p/ o fim da liberdade, o fim de todos os valores humanos, o fim do aprimoramento Divino.